Entrevistas

ENTREVISTA COM SALETE MARIA

foto 2016

Feminista, Advogada e professora universitária, Salete Maria também é uma das mais importantes cordelistas do Brasil. Sua trajetória é longa e fundamental para pensarmos no papel que as mulheres têm desempenhado dentro deste cenário vasto que é a cultura popular do nosso país. No Dia Internacional da Mulher, data importante para refletirmos sobre as questões de afirmação, alteridade e participação social do gênero em nossa sociedade, preparamos uma excelente entrevista com a autora.

EM – Para não perder o costume, gostaria de saber como começou o seu interesse pela Literatura de Cordel e quais são as suas principais influências.

SM – Meu interesse pela literatura de cordel é bem antigo. Vem desde a minha infância, tem a ver com a forma como fui socializada, com o contexto sócio-econômico e cultural da minha família. São múltiplas as minhas influências. Aqui eu vou destacar a principal delas: Minha avó, Dona Maria José. Foi ela quem me ensinou a gostar de cordel. Ela nasceu em Juazeiro do Norte, sul do Ceará, em 1913. Foi batizada pelo padre Cícero Romão Batista, casou-se aos 13 ou 14 anos e foi morar num sítio chamado Cana Brava dos Gregórios, no município de Granjeiro, no mesmo estado. Lá ela teve quase duas dezenas de filhos e viveu modestamente numa casinha de taipa e depois numa de tijolos. Ela era uma mulher do mato, como se definia. Gostava de tirar novenas, rezava nos “mininos duentes’’, tinha muitos afilhados e era comadre de quase todo mundo. Ela admirava muito as pessoas que sabiam ler e escrever. Era devota do Padre Cícero e costumava ir a Juazeiro para ver Frei Damião. Gostava de vestir roupas de algodão, quando podia comprar, e tinha umas anáguas lindas de morrer. Meu avô era negro, agricultor e vivia da casa pra roça. Ele sabia ler um tiquim e costumava ir à feira para comprar folhetos de novenas, carta de ABC, tabuada e cordel, que eles chamavam de “foieto”. Quando meu avô ia pra feira ele trazia o feijão, o fumo, a farinha e o foieto. Era de lei esses 4Fs.  Na casa deles tinha muitos folhetos. E somente minha tia, Maria Senhora, que hoje vive em Iguatu, sabia ler e lia para as pessoas que chegassem, para meus avós e pra mim, claro, quando eu ainda não sabia ler. Essa tia era catequista e por isso gostava de juntar crianças para ensinar o catecismo e também lia folhetos para elas. Quando eu ia passar férias na casa deles, assim que eu aprendi a ler, eu era praticamente obrigada a ler folhetos todas as tardes, porque minha avó dizia que era para ela ver se eu sabia ler mesmo (risos). Ela, portanto, não sabia ler e nem escrever, mas era uma professora para mim.a primeira cordelista que conheci minha avó Maria José

Eu tomei gosto pela leitura dos folhetos por causa disso, dessa forma de sociabilidade que a gente vivia na companhia dela. Mas sempre questionei algumas histórias, inclusive as de reis, de soldados, de generais, etc. Vale destacar que eu nasci em São Paulo, fruto do êxodo rural, mas sempre ia pro Ceará e, quando voltava, levava cordéis comigo. Um dia meus pais foram definitivamente morar no Ceará. Aí sim eu passei frequentar a casa de meus avós com assiduidade. Desde criança eu sempre rabiscava poesias, fiz poesias de toda sorte, inclusive folhetos. Até hoje minha mãe guarda uns rabiscos meus na casa dela…porém, somente em 1994, quando Olga, minha única filha, nasceu, publiquei meu primeiro folheto, no formato de Cordel mesmo. Trata-se do folheto Mulher Consciência: nem violência nem opressão, considerado, pelas estudiosas, o primeiro cordel feminista do Brasil. Segundo Claudia Rejanne, doutora em letras e docente de uma universidade pública no Ceará, meu primeiro folheto foi uma poesia que eu publiquei num jornal do DCE da URCA, não sei exatamente em que ano. Ela diz que era um Cordel, no caso meu primeiro Cordel, na concepção dela, cujo título era “Desabafafo Acadêmico Matuto”, que tinha a seguinte frase como mote: “esse curso de direito só vai me desmantelar.” Mas eu não acho que aquilo era um Cordel. Eu não digo que ele foi meu primeiro Cordel. Sei lá, não sou pesquisadora de Cordel, para mim era uma poesia rimada, só isso. Meu primeiro folheto publicado mesmo foi esse que falei acima, em 1994, portanto, há 22 anos. Bom, voltando a minha inspiração. Minha avó não somente me apresentou muitos folhetos – os clássicos, sobretudo -, como ela me inspirou na escrita de muitos. Como eu disse, ela nunca aprendeu a ler ou escrever, mas foi uma grande poetisa, ela inventava estrofes, ela varria o terreiro recitando coisas. Ela também tinha de memória todos os folhetos que eram lidos para ela. Ela guardava tudo na memória. Mas quando ela fazia as rimas dela mesma, ela metia as rimas dos outros pelo meio. Ela começava com algo dela e intertextualizava com os clássicos. Ela brincava, ela inventava…de forma que eu nunca sabia quando algo era completamente dela. Mas hoje eu penso que nada é completamente de ninguém, afinal, como diz o Legião, “quais são as palavras que nunca foram ditas”, né? Bem, na velhice ela ficou cega e aí eu não somente passei a ler mais para ela, como passei a gravar o que ela dizia, pois fiz entrevistas com ela quando ela já tinha entre 85 e 90 anos…ela morreu em 2003. Eu gravei em fita K7 muitas falas dela e pretendo usar isso num diálogo teatral, em algum momento da vida…não eram entrevistas com um fim especifico, era porque minha avó sempre me encantou, sempre foi uma estrela, uma artista…ver ela recitando era fantástico, ela era performática….as entrevistas que fiz com ela já foram analisadas por professoras brasileiras e estrangeiras, como Fanka (UFCA) e Ria Lemaire (França)… Bem, basta eu dizer que minha avó amava Literatura de Cordel. E eu amava minha avó e passei a amar Literatura de Cordel também. Ela foi a primeira cordelista que conheci na vida. Ela nunca publicou  nada, mas o filho dela sim,  o poeta Zé Alexandre, que mora em Juazeiro, e esteve abrilhantando minha festa de 20 anos de Cordel… Eu narro essa história da influência de minha avó na minha poesia no cordel intitulado “Cordelirando”, assim como no cordel intitulado Feminismo em cordel, como foi que começou?

bienal do livro bahia 2013

EM – Além de advogada, você é professora e pesquisadora. Porque resolveu escrever literatura popular?

cartaz do filme baseado em meu cordel intitulado O milagre travesthriller a história da travesti que com fé engravidou

Cartaz do filme baseado no texto da autora

SM – Olha só, costumo dizer que sou uma feminista cordelista, professora, pesquisadora e advogada, necessariamente nesta ordem (risos)… Mas deixa eu contextualizar essa coisa toda para que você possa entender melhor essa minha ‘opção’ pela literatura popular… Além do que já destaquei na pergunta anterior, sobre minha infância entre folhetos e recitais, sobre a influência de minha avó na minha vida, como a primeira cordelista que conheci, vale dizer que nasci numa periferia paulista, filha de pessoas que tinham cordéis em casa. Meus pais são pessoas com pouca escolaridade. Sempre trabalharam em atividades de pouco prestígio social e baixíssima remuneração. Pessoas de parcas leituras, no sentido tradicional dessa palavra. Morei em favela. Desde cedo aprendi a questionar desigualdades. Me envolvi com partidos de esquerda, com sindicatos, com movimentos estudantis, movimentos de mulheres e, posteriormente, com o movimento LGBTT, tendo ajudando, desde muito jovem, a construir ações e fazer intervenções tanto em Sampa como no Cariri cearense, para onde fui em definitivo no ano de 1986. No Ceará, trabalhando como comerciária, depois como fotógrafa, depois como professora e estudando muito, inclusive autodidaticamente, já militando no PCdoB, firmei-me como feminista marxista e sempre desenvolvi uma luta no interior e na fronteira dos partidos políticos. Li muito e atuei muito, questionado hierarquias, práticas e discursos excludentes. Aprendi muito com companheiros e companheiras de jornadas, com quem fiz amizades que são conservadas e cultivas até hoje. Costumo dizer que o feminismo no Cariri, enquanto movimento e pensamento político e cultural, nasceu e se desenvolveu a partir das militantes socialistas que nunca dissociaram a luta contra a exploração capitalista da luta contra a violência de gênero e a exclusão social, econômica e política das mulheres. Assim, em conjunto com outras companheiras,  sempre tentamos colocar as questões das mulheres na ordem do dia, buscando politizar o 8 de março que, em regra, era tomado como um momento de condecoração das mulheres da elite caririense. Eu narro isto no cordel Mulheres invisíveis de Juazeiro, onde questiono esta postura dos poderes constituídos e apresento “outras” mulheres como protagonistas da luta social e da história desta região. Falo das mulheres simples do povo, mulheres anônimas, mulheres que não estavam presentes no livro “Mulheres de Juazeiro”, do escritor cearense Raimundo Alencar, por exemplo. Sempre atuei muito fortemente com relação a estas coisas. E meu/nosso feminismo estava também dentro de todas as demais lutas que travávamos. Participei de grupos de mulheres de bairro, na luta em prol de saneamento, em prol da saúde pública. Participei muito dos programas de rádio tentando contribuir para a desconstrução do “ideal de mulher” que estava/está presente na visão androcêntrica de mundo. Falava de feminismo, de direitos humanos das mulheres e da necessidade de se articular a luta contra o patriarcado, racismo e capitalismo. Posteriormente, já como advogada, sempre acompanhei mulheres e homossexuais vítimas de violência. Fiquei 9 anos dando assistência jurídica gratuita a população de uma pequena cidade chamada Caririaçu, especialmente às mulheres daquele município que não tinham condições de pagar advogados e sequer tinha defensores públicos a época.  Além disto, as candidaturas a vereadora, prefeita e governadora visaram colocar na agenda pública, na ordem do dia, este debate tão importante numa época em que esta temática não estava em evidência. Tudo isso eu colocava para circular através do cordel. O meu primeiro cordel mostra tudo isto. Eu o fiz após o assassinato da filha de uma vizinha que em muito se assemelhava a outros que aconteciam na região e noutros lugares. E fiquei muito feliz ao perceber o seu uso em oficinas, palestras e em salas de aulas no período do 8 de março. Toda essa vivência influenciou a produção dos meus folhetos. Ser uma das pioneiras das lutas políticas e feministas no Cariri, ajudar a fundar duas ONGs gays nesta região, assessorar juridicamente mulheres e homossexuais. Ser candidata e me apresentar como tal, dar palestras e criar “constrangimentos pedagógicos” sobre estas opressões todas foi algo que sempre esteve ao lado de uma profícua produção de cordel acerca destes temas. O cordel Mulheres do Cariri: mortes e perseguição é um cordel que traz isto muito bem, o cordel Cidadania, nome de mulher, idem. O cordel O que é ser mulher? de igual modo. E tantos e tantos outros. Um cordel intitulado Habeas Bocas, Companheiras, foi feito para convocar as advogas do Cariri a também perceberam as discriminações e violações de que eram/são alvo. Cordéis como  Mulheres Fazem e Mulher-Cariri Cariri-Mulher, tratam do protagonismo e do empoderamento das mulheres. Assim como o cordel Lugar de Mulher. A participação nestes movimentos  influenciou meu versejar e meus folhetos também influenciaram os movimentos, conforme já ouvi falar. Basta ler os cordéis que fiz sobre a ocupação da URCA, quando o governador não quis nomear o reitor eleito. Ainda no campo da questão das mulheres, no combate ao sexismo, o cordel O Caso Eliza Samudio e o Machismo Total também revela esta questão, assim como Embalando meninas em tempos de violência e Basta de Feminicidio!, além do cordel Maria de Araújo e seu Lugar na História ou a Beata Beat Cult. Além de todos os cordéis que tratam das temáticas e questões LGBTT, que são muitos e estão no blog Cordelirando e no livro, mas tem alguns que ainda precisam ser colocados lá. Graças a Sammyra Santana muitos dos folhetos, quase todos, estão na rede mundial dos computadores para quem quiser acessar. O meu propósito sempre foi esse, socializar. A temática das mulheres não é algo que eu abracei para vender folhetos, mas é algo que decorre de uma luta da qual eu sempre participei. Ademais, como neta de uma mulher que amava cordéis, que me ensinou a amar também, socializo minha produção para que outras mulheres possam acessar, sem qualquer custo e refletir sobre sua condição social, visando a transformação do status quo. Explico isto na entrevista que dei ao Coletivo Camaradas, pois em Juazeiro, durante muitos anos, somente cordéis, em sua maioria machistas, circulavam nas feiras e faziam sucesso entre pesquisadores/as. E tinha gente que ganhava dinheiro disseminando discurso de ódio nos folhetos. Basta ler a tese de Claudia Rejane para perceber isso.

A nossa atitude, embora eu as vezes penasse muito para publicar um folheto, não era ganhar dinheiro com isto, pois como se tratava de uma militância, de um compromisso, eu escrevia e presenteava muitas mulheres no meu bairro e no Cariri como um todo e mandava, via correios, para amigas de vários lugares. Infelizmente, nesta época ainda não tinha a internet…ou pelo menos eu não tinha acesso a ela.  Alguns cordelistas tinham raiva disso, ou seja, do fato de eu fazer folheto para contribuir com as lutas e não para ganhar dinheiro ou atender a pedidos e encomendas de políticos, notadamente da direita, como tantos faziam e creio que ainda fazem. Isso me entristecia e eu percebia  que algumas pessoas,  mesmo vivendo no meio dessa literatura, não dava valor a isso…Tem muita gente que ao citar os grandes poetas do Cariri ou os cordéis mais interessantes, nunca citava/cita nada produzido por nós, por mim. Mas isto decorre do preconceito com a escrita feminina e também do não reconhecimento da nossa contribuição. Vejo isto com pesar, pois é importante conhecer a história, a trajetória e o esforço das pessoas que em épocas distantes deram o primeiro passo, semearam a semente….Enfim, o meu folheto tinha e tem esse compromisso com a luta social. Na verdade, eu nunca separei o poético do político. Dizem que meus folhetos inauguraram uma nova forma de construir rimas, mas minha felicidade era ver as pessoas lendo, dramatizando, recitando…sou muito agradecida aos artistas do Cariri que fizeram peças, filmes e declamações baseados no meu trabalho. Vale destacar que também tratei de pessoas com deficiência, pessoas idosas (O que é a velhice? e o outro intitulado A história de Zé leitor), trouxe a questão do racismo, questionei os paradigmas jurídicos, até petição em cordel eu fiz e estão nos anais do Fórum em Caririaçu. Sammyra Santana colocou uma dessas petições no blog. O centro da minha poética são os cordéis feministas e libertários, mas sempre falei de direitos humanos nos meus folhetos. Vide o cordel sobre assédio moral, vide o cordel condenando a violência que Gilvan Luiz, um jornalista cearense, sofreu, etc. De todos os humanos, enfatizo as humanas historicamente discriminadas, excluídas e silenciadas. Vide meu cordel intitulado Direitos Humanos, isto é fundamental, publicado em 2006.

recitando cordel Cordelirando

EM – Como é fazer Literatura de Cordel num ambiente predominantemente masculino?

SM – No campo da literatura de cordel, assim como em outros campos, inclusive da chamada “grande literatura”, o androcentrismo e o sexismo ainda é  uma constante, ainda constitui o discurso hegemônico. Eu aprecio muito a qualidade das rimas de muitos poetas homens. Aprecio sua resistência e dedicação para manter viva a cultura popular, manter vivo o folheto de cordel. No Ceará, na Bahia e em outros estados tem vários poetas de cordel que merecem nosso respeito, nossa consideração. Eu falo com sinceridade, há muita pérola, muita riqueza nessas rimas todas, mas também destaco os preconceitos presentes em muitos folhetos. Mas isso não é ‘privilégio’ dos poetas de cordel. Os grandes clássicos da literatura estão recheados disto, afinal, estamos imersos numa cultura ainda fortemente marcada pela predominância masculina nos espaços de produção, circulação e consumo dos folhetos e de outros gêneros literários. Mas existem cordelistas mulheres aos montes furando essa bolha, mudando essa realidade, paulatinamente. Precisamos de auto-organização, de mais reflexão sobre esta realidade. Precisamos colocar na ordem do dia este debate. Por outro lado, tem também a questão da classe social, dos preconceitos ou descaso para com esta literatura que não ganha o mesmo status que outras produções, seja no mundo acadêmico, seja no sistema de ensino, seja nos salões e eventos relacionados à literatura, seja nas mídias, seja no circuito editorial. Sempre destaco que as editoras, sobretudo as ditas grandes editoras, quando não ignoram a literatura de cordel, tratam de divulgar apenas a produção masculina, a exemplo de uma antologia publicada pela editora Hedra, que traz os 50 poetas populares de norte a sul e não contempla uma única cordelista mulher. São cinquenta livros contendo folhetos de vários poetas, apresentados por pesquisadoras e pesquisadores de alto nível no campo da literatura. Mas, apesar da qualidade do material, da importância, inclusive histórica, da antologia, apesar da excelente contribuição que a mesma dá para a visibilidade do folheto no Brasil, a “cegueira de gênero” é o que caracteriza a antologia, infelizmente.

Visando problematizar esta realidade rica, complexa e contraditória do mundo dos  folhetos, eu e outras/os poetas caririenses organizamos e lançamos a Sociedade dos  Cordelistas Mauditos, com “u” mesmo. Esta Sociedade foi criada no ano 2000, em Juazeiro do Norte-Ce, por iniciativa da poetiza e pesquisadora Fanka Santos, do cantor, cantador e poeta de cordel Helio Ferraz, do poeta Hamurabi Batista e de outras pessoas, dentre elas euzinha. Tratava-se de um grupo, de um movimento, de uma aliança informal de poetas que veio enriquecer ainda mais a já rica cultura cariri, que de tão diversa, de tão múltipla, de tão cara, de tão nobre tornava se a cada dia mais interessante aos olhos dos de dentro e dos de fora daquele “locus cultural’’. Surgimos em plena “comemoração” dos 500 anos do Brasil, e apresentamos uma proposta inovadora, problematizadora sobre arte, sobre literatura, sobre cordel. Desde cedo propusemos um diálogo do cordel com outras manifestações culturais. E dizem que a diferença entre os Mauditos e os ditos tradicionais se dava tanto na forma quanto no conteúdo. E é verdade. Na forma, inovamos com o papel, com a capa, que além da xilogravura, também usava colagens, desenhos, fotos, etc. Às vezes ilustrávamos até as folhas internas do cordel. No conteúdo, procurávamos trazer uma abordagem crítica, denunciativa, propositiva, problematizadora e emancipatória, com questões que os cordéis tradicionais tratavam e tratam e mantendo o status quo. Evidenciamos, de maneira coletiva, a questão da violência contra a mulher, do discurso homofóbico, machista, racista, sexista presente em muitos dos clássicos da literatura de cordel. Falamos sobre temas os mais variados e demos visibilidade a acontecimentos, pessoas e relações sociais não tratadas até então por este tipo de arte. Atualmente, os Mauditos estão, enquanto grupo, meio dispersos, pois os cordelistas precisam trabalhar para sobreviver…Eis a prova da existencial social e política do poeta…De vez em quando algum de nós se comunica com o outro, em geral para dar notícias de um novo cordel que tá produzindo…Hélio e Soneca já me mandaram textos maravilhosos que produziram neste período em que somente temos nos falado pela internet…Mesmo assim, por onde passo gosto de destacar nossa Sociedade e o valor do trabalho do grupo e de cada um. Sempre coloco em relevo a importâncias da poesia dos colegas, dos Poetas Hélio Ferraz, Fanka, Soneca, Batata, Orivaldo, Nicodemos, Paulo, enfim, dos ditos mauditos do Cariri, que, na minha opinião, são realmente muito bons. Logicamente que de tão mauditos temos divergências entre nós, mas isto faz parte da proposta de sociedade. Nos últimos tempos parece que quem mais tem publicado sou eu, e tenho procurado manter este espírito de poesia social e crítica que marca o nosso grupo e o meu próprio trabalho desde antes da Sociedade. Em 2000 divulgamos manifesto que dizia mais ou menos assim: “A nossa comunicação se dá através da poesia de cordel, traço da nossa identidade nordestina. Odiamos tecnicistas sem sentimentos literários. Somos contra o lugar comum da globalização que cria signos massificantes e uniformiza o comportamento estético. Nosso movimento pretende, sob uma ótica intertextual, utilizando vários códigos estéticos, redimensionar a literatura de cordel para um campo onde todas as linguagens sejam possíveis. Não somos nem erudito nem popular, somos linguagens. Entramos na obra porque ela está aberta e é plural. Somos poeta e guerreiros do amanhã. A poesia escreverá, enfim, a verdadeira história. Viva Patativa do Assaré e Oswald de Andrade.” Estamos revendo e relendo algumas questões. Para o ano 2010 estava previsto um encontro para pensar os 10 anos da Sociedade…mas não houve. Gostaria de dizer que, na verdade, não foi exatamente a gente que se apresentou como os “diferentes”, foram os “iguais” que nos acusaram de não saber fazer cordel, de trair o cordel tradicional, estas coisas… Muitos sustentaram até que nós não fazíamos literatura de cordel porque nós estávamos quebrando dogmas, tabus do cordel. Mas este discurso já era tão previsível que não nos importamos com isto. Quanto à importância do movimento eu digo que este ainda não foi suficientemente compreendido, nem pelos membros, nem pelos apreciadores, nem pelos depreciadores, enfim. Falta pesquisa, falta pesquisa para entender isto… aliás, aproveito a entrevista para sugerir aos estudantes e aos estudiosos do campo da literatura e das políticas culturais que procure entender isto, pelamordedeus… Violeta Arraes, ex-reitora da Universidade Regional do Cariri, esteve presente no lançamento dos Mauditos no ano 2000, e disse-me, certa vez o seguinte: “este movimento de vocês vai dar panos para as mangas”… Espero que ela, como uma grande carpinteira da cultura que foi esteja certa… De qualquer modo, os Mauditos já são citados e estudados por alguns pesquisadores de instituições de fora do Cariri. Eu acredito que foi uma grande experiência, e dou um grande Viva para os Mauditos do Juá.

segurando a antologia Outras Rimas Outras Pessoas cordéis sobre invisíveis

EM – Você se intitula uma cordelista feminista brasileira. O que veio antes? O Cordel ou o feminismo?

SM – Na verdade, como eu disse na entrevista para o Coletivo Camaradas, o feminismo e outros movimentos/pensamentos surgem na minha escrita não como tema, mas como um reflexo de minha vida, de minha militância, pois minha existência, meu lugar social está no campo dos sub-representados, das ditas minorias sociais, uma vez que sempre participei das lutas pelo reconhecimento de certos sujeitos e de seus direitos. Minha arte, portanto, desde que tenho consciência do meu lugar e do meu papel social, sempre foi assumidamente militante, participante, e eu não apenas tenho a coragem de assumir esta, para muitos, incômoda posição como tenho orgulho de me colocar desta maneira, malgrado o alto preço que se paga por adotar esta postura. Mas isto não é algo que faz parte do meu show, é o elemento central dele. A respeito disto, concordo com Gorki, quando diz que o escritor “não pode ser uma simples testemunha contemplativa dos acontecimentos de sua época.” Com efeito, não sou mais um escriba de velhos conceitos e preconceitos que os registra, insípida e imparcialmente, ao longo da vida. Assim como Drummond, constato que “são tão fortes as coisas, mas eu não sou as coisas e me revolto!”. Sou uma escritora das revoltas, uma revoltada na melhor e mais política acepção desta palavra. Escrevo para provocar reflexão, revolta, pensamentos, conhecimentos, para, quem sabe, ajudar a mudar as coisas. Werneck Sodré nos ensinou que as artes não são feitas apenas para o deleite, o ócio, o prazer. E eu reconheço que estas são possibilidades e aspectos importantes das artes. Mas a arte também é um processo de conhecimento, tão rico e tão importante quanto qualquer outro. Por isto não nego o caráter social e transformador do fenômeno literário. Eu escrevo profundamente (ins)pirada, mobilizada por aquilo que vivo, que experimento, individual, coletiva e, sobretudo, socialmente no meu tempo e no meu lugar de existência…E o Cariri, durante uma época, foi o meu lugar de lutas, onde eu também retratei, poeticamente, as minorias sociais orando, laborando, pelejando e construindo sua história. Se você observar, a quase totalidade de meus cordéis tem como palco, como cenário, o Cariri cearense. Mas desde que vim morar na Bahia, em 2007, também ambiento meus folhetos por aqui.

EM – A internet tem sido importante para a visibilidade de pautas relacionadas a gênero e feminismo, assim como das divergências em torno desses temas. Qual a importância desse universo virtual para a sua arte/militância?

SM – É fundamental. O cyberfeminismo que o diga. A rede mundial dos computadores encurta distâncias, possibilita diálogos, articulações, aproximações. É certo que também causa desconfortos, inconveniências, distorções. Mas tem importância fundamental na disseminação de ideias libertárias, de produções científicas, artísticas, culturais. Quando Sammyra criou o blog Cordelirando, visando inserir minha poética para que o mundo todo pudesse ler, achei o máximo. Ela percebeu que meus cordéis estavam esparsos, soltos por aí. E tinha muitos deles que nem eu mesma tinha mais um exemplar, pois eu costumo dar para as pessoas, presentear os movimentos, as mulheres de luta, enfim. Então criou o blog e passou a alimentá-lo, como uma cordelteca virtual, como um repositório onde minha obra fica guardadinha, disponível para quem quiser ler, consultar e usar. E lá nós não colocamos apenas trechos não, os cordéis estão na íntegra, pois esta é uma atitude coerente com o nosso objetivo, qual seja, compartilhar, disseminar ideias, contribuir com as reflexões em torno da igualdade de gênero, do combate às opressões, etc. Através do universo virtual muita gente chegou até nós. Pesquisadoras/es do Brasil todo começaram a investigar nosso trabalho, a refletir sobre ele. Existem mais de dez trabalhos, entre teses, dissertações e monografias, dedicados a analisar nossa obra ou que fazem referência a ela como algo digno de análise, de discussão, de divulgação. Somos muito gratas por isto.

na bienal do livro com cordelistas baianos (1)

 EM – Como você avalia o país, atualmente, principalmente no que tange às políticas públicas voltadas para as mulheres?

SM – O país está uma tristeza total, sobretudo para as mulheres e, mais particularmente para as mulheres populares e diversas. Costumo dizer que estamos sendo golpeadas quase que diariamente. E não somente pelos homens, dentro e fora dos nossos lares, mas pelo governo através de suas políticas neoliberais que restringem direitos, que atacam conquistas históricas, como a própria Secretaria de Políticas para as Mulheres, a SPM, que foi transformada numa pequena dispensa, após a fusão com outros ministérios. Trata-se de uma atitude que evidencia o lugar e importância das temáticas femininas para um governo que, em princípio, falava da importância da ampliação da cidadania feminina, do respeito aos direitos das mulheres, do combate à violência. As políticas neoliberais do governo Dilma não somente estão restringindo direitos sociais – como por exemplo a saúde, a educação, mas direitos trabalhistas e previdenciários, afetando sobremaneira as mulheres das camadas pobres da sociedade e incrementando o fenômeno da feminização da pobreza, tão amplamente estudado e questionado pelos feminismos. Eu lamento tudo isto, mas percebo que era previsível, haja vista as opções adotadas, as alianças políticas com grupos políticos e econômicos que historicamente estiveram de costas para as mulheres, para suas necessidades e especificidades. É deplorável que o ministro da saúde seja alguém que fala abertamente contra os interesses das mulheres, notadamente as negras e pobres. É lamentável que a ministra da reforma agrária seja uma latifundiária, uma legítima representando do agronegócio, além de outros ministros e ministérios que pouco ou nada se preocupam com as nossas demandas. O quadro atual leva a menos direitos para as mulheres, menos recursos para nossas pautas, menos políticas e menos poder para todas nós. Associado a isto, temos um parlamento extremamente conservador, constituído por vozes sexistas, racistas, homofóbicas, que, quando convém, aprovam as medidas provisórias propostas pelo governo Dilma para prejudicar a classe que vive do trabalho, como as 664 e 665, que já foram transformadas em lei. Um parlamento que inviabiliza o funcionamento do país, mas que não abre mão de seus privilégios, que, por razões de classe, mantém interesses e vantagens intocáveis, tais como as benesses dos deputados e senadores, dentre os quais muitos são de esquerda mas também não abrem mão de um centavo nesta época de crise, quando todos se unem para justificar os cortes nos direitos, as restrições de acesso a bens e serviços tão necessários a toda a sociedade. Tivemos um período de ganho, de conquistas, todas decorrentes das lutas das mulheres, da pressão dos feminismos, mas, atualmente, estamos num crescente de perdas, passamos por uma fase de retrocessos históricos, golpes duros nas nossas conquistas, nas nossas vitórias obtidas a duras penas, sobretudo no pós-constituinte. E o pior: falar sobre isto é algo que causa um mal-estar nas pessoas. E eu vejo que as mentes críticas já não são tão críticas assim. Discutir os retrocessos nos direitos das mulheres virou um tema tabu, dentro e fora da Universidade. Será que somente a poesia ou a arte de um modo geral nos salvará nessas horas? Ou, como diria Caetano: “será que apenas os hermetismos pascoais/ Os toms, os miltons, seus sons e seus dons geniais / Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?” Eu penso que a literatura de cordel, crítica, engajada, ousada, abusada e feminista também pode nos salvar, nos alertar, nos alentar. Eu acho.

cartaz da festa feito por Alana Maria

EM – Gostaria de deixar uma mensagem final? 

SM – Gostaria de gradecer imensamente pela oportunidade, pela consideração para com minha/nossa poética e por este momento. Gratidão ao Universo por este encontro, ainda que virtual.  Finalizo com algumas estrofes do cordel intitulado “Lugar de Mulher”, disponível na íntegra no nosso blog Cordelirando:

Na janela dum sobrado
Daqui donde me defronto
Com meu presente e passado
Fico metendo a colher
Do ‘meu lugar de mulher’
Neste mundão desgarrado

Do meu ângulo obtuso
Num canto da camarinha
Afrouxo um parafuso
Liberto uma andorinha
Desmancho uma estrutura
Arranco uma fechadura
Desmonto uma ladainha

Reza a história do mundo
Que mulher tem seu lugar
É um discurso ‘corcundo’
E prenhe de bla-bla-blá
Eu que ando em toda parte
Divulgo através da arte
Outro modo de pensar:

Lugar de mulher é quarto
Sala, bodega e avião
Lugar de mulher é mato
Cidade, praia e sertão
Lugar de mulher é zona
Do Estado do Arizona
À Vitória de Santo Antão

P.S: Para quem tiver interesse em visitar ou para quem quiser usar em atividades, eventos, roda de conversa e recitais, dentro e fora das instituições de ensino, a página virtual da autora é:

cordelirando.blogspot.com

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ENTREVISTA COM BULE-BULE

CONVIDADO A PARTICIPAR NA ABERTURA DA SEMANA DA BIBLIOTECA DO INSTITUTO FEDERAL BAIANO – CAMPUS CATU, O MESTRE DA CULTURA POPULAR, BULE-BULE, DEDICOU UM TEMPINHO  PARA TAMBÉM NOS AGRACIAR COM ESSA SINGELA ENTREVISTA. AQUI O POETA FALA UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA, DA IMPORTÂNCIA DE LUIZ GONZAGA E SOBRE O MERCADO MIDIÁTICO DO BRASIL DE HOJE.

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Primeiramente gostaríamos de saber quem é Antônio Ribeiro da Conceição.

É uma flor do Norte Baiano, companheiro da República Federal, moço do código da lei, Caixola que Deus me deu, inspetor juramentado, se perguntar cadê ele, ele está aqui: seu criado! Filho de Manoel Jararaca que mora na Loca da Pedra, se meter o pé com ele vai ver o rolo da queda. Sou este moço que está na sua beira, cravo das moças e alecrim que cheira. Filho de Isabel Ribeiro da Conceição, doceira, louceira, benzedeira, parteira e outras eiras.

E quem é o Bule-Bule?

É um cantor repentista, tiraneiro, cordelista, forrozeiro, sambador, que veio hoje aqui (em Catu) bater um papo de mestre.

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Mestre, qual é a importância de Luiz Gonzaga para a sua trajetória como artista e como pessoa?

O grande Lua, não só pra mim, como acredito que para noventa por cento dos nordestinos, é um exemplo de vida, uma chamada para o social, uma defesa para os menos favorecidos, um defensor dos oprimidos etc etc etc… Musical e culturalmente falando, não se têm adjetivos para falar dele. Sem ele o Brasil seria bem menor, muito mais estreito, talvez uma faixa que ainda precisasse ser explorada. Certa vez, um cientista disse que se houvesse uma catástrofe natural no Brasil e se preservasse ao menos três livros do Câmara Cascudo poderíamos refazer tudo novamente a partir deles. Acredito que com o Luiz Gonzaga é a mesma coisa: se salvássemos a sua obra poderíamos reconstruir tudo o que diz respeito ao Nordeste.

O senhor recebeu recentemente, da Prefeitura de Lauro de Freitas, o título de doutor honoris causa. O que isso representa para o senhor, um homem do povo?

Isso. Recentemente a Prefeitura, junto a outras universidades, fez essa homenagem não só a mim, mas também para outras figuras como Gereba, Carlos Pitta entre outros. Todos sabem que quando uma instituição de respeito decide dar um título desses a um mestre popular é porque reconhece e valoriza toda a sua trajetória e qualquer um que estiver nesse lugar ficará certamente muito honrado. Eu fiquei muito satisfeito com isso. Não quer dizer que vou sair exibindo isso por aí, mas fico feliz por saber que é um reconhecimento pelos meus mais de 50 anos trabalhando em prol da cultura popular brasileira.

De que forma o senhor tem acompanhado as manifestações populares pelo país afora? O que tem observado?

Desde sempre as manifestações populares de raiz lutaram pela sua sobrevivência. O que está acontecendo de melhor agora é que, depois da passagem de Gilberto Gil pelo Ministério da Cultura, os mestres que nunca tiveram oportunidade de mostrar seus trabalhos começaram a ter mais visibilidade. Através dos editais promovidos pelo governo a nossa arte passou a se tornar mais acessível. Isso foi uma atitude muito nobre do presidente Lula e uma visão muito louvável do Gil que valorizou essa área.

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Agora vamos falar sobre a cultura pop no Brasil. Estamos presenciando, atualmente, um “fenômeno” midiático chamado Wesley Safadão. Se fala muito, hoje, em forró universitário, sertanejo universitário, arrocha universitário. O que o senhor tem achado de tudo isso?

Como diz o ditado: “quem não morre fica velho”. Né isso? Eu estou vivendo nessa época e vendo tudo isso. Se é o tipo de música que me agrada, eu digo que não. Se é algo que eu valorizo? Não é. Eu acho que ele (o Safadão) faz um trabalho que ainda vai circular por um certo tempo na mídia. Se a mídia quiser, se não aparecer algo diferente, ele vai permanecer aí por mais algum tempo. Mas esssa sustentação é muito frágil, porque isso não é raiz. É como o axé. Teve lá o seu período de ouro e foi perdendo força, os sujeitos saindo de suas bandas, procurando fazer carreira solo, mudando de ritmo, porque também não tinham sustentação cultural e continuam sem ter. Eu acho assim: Luiz Gonzaga nunca cantou pornografia e se sustentou até a morte, criou verdadeiros hinos, clássicos populares da nossa música. Se esses caras, com os instrumentos que têm, com a produção que têm, com palcos imensos, fizessem uma música mais honrosa, com mais sustentação, conseguiriam atingir um público maior e fazer algo de qualidade, que ficasse eternizado. Mas se você parar pra observar, o público que escuta esse tipo de música, me perdoe, mas tem um nível de inteligência muito baixo. Pode parecer que estou falando bobagem, mas eu estou no mercado há 40 anos sustentando uma família de 11 filhos apenas com o meu trabalho artístico. E estou muito feliz com isso.

O projeto do Bule-Bule na internet é muito bacana. O senhor tem um site lindo, além de um canal no youtube bastante acessado. Como o senhor lida com isso? É um homem antenado?

Eu não. Não sei mexer em nada disso não. Eu tenho parceiros. O meu filho, por exemplo, é o meu produtor. Além disso, eu tenho uma equipe, toda de jovens pensadores, que juntos fazem com que a minha carreira vá adiante e o meu trabalho seja visto também nessas novas tecnologias.

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(No início da aula-show “Um papo com o mestre” ainda tive o privilégio de participar de uma brincadeira com o querido Bule-Bule, que me convidou para tocar uma embolada. mais imagens no menu FOTOS)

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ENTREVISTA COM FRANKLIN MAXADO – O MAXADO NORDESTINO

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Fonte: Google

Primeiramente, como de costume aqui no blog, me fale um pouco sobre como começou esse seu interesse pela Literatura de Cordel.

Eu sou nascido e criado em Feira de Santana. E lá tinha uma grande feira na praça, onde apareciam os poetas populares, os cantadores de viola, vendendo e declamando os seu trabalhos, e isso, no meu universo de menino, sempre me fascinou. Eu sempre parei pra escutar tudo isso. Às vezes eu fazia uns versos, mas não os publicava. Naquele tempo, a LC, assim como as Histórias em Quadrinhos e outras artes, não era bem vista, era tratada como imoral. O meu pai, que era dentista, por exemplo, condenava. Quando eu lia aquilo tudo era escondido dele. Depois de adulto é que eu tive uma consciência maior do que aquela arte representava e comecei a me dedicar a ela.

Conte um pouco sobre a sua trajetória até entrar no “Cânone” da Literatura Popular, levando em consideração que o senhor é formado em Direito. Como se deu o processo de aceitação por parte dos cordelistas já consagrados naquela época?

Sofri uma grande repulsa, inclusive por parte do J. Barros, que escreveu um cordel intitulado “Doutor, o que faz um Cordel?”. Na outra semana, eu respondi a ele com o texto “O doutor faz em Cordel o que o Cordel faz em doutor”. Nesse momento, o Raymond Cantel (1914-1986, professor da Universidade Poitiers e um dos maiores pesquisadores da Literatura Popular no Brasil) viu isso como um marco na nova Literatura de Cordel, porque até então o cordelista era visto como um homem bruto. Além disso, eu chegui com novas técnicas de impressão do folheto, pois substituí a antiga tipografia pelo mimeógrafo, a xérox, a offset etc. Enquanto os antigos já estavam se aposentando, morrendo, eu cheguei como sangue novo nessa produção, viajei o país cantando, declamando, fazendo performances. Não dava para acreditar que essa Literatura seria eternamente produzida por escritores iletrados, analfabetos. É claro que sua origem está ligada à oralidade, mas o próprio Rodolfo Coelho Cavalcante me disse certas vez: “Não ficaremos ignorantes o tempo todo”. Isso foi um estalo. Percebi que o Cordel poderia se atualizar com os estudos e muita leitura. É o que está acontecendo hoje, visto que muitos poetas, como você, estão escrevendo e ensinando em escolas, universidades etc. Além disso, o próprio povo da roça também está se alfabetizando, entrando em universidades e tudo mais. É uma coisa natural.

FRANK E LULA

Fonte: Google

O senhor deixou a carreira de Direito para se dedicar exclusivamente à Literatura Popular. Me fale um pouco mais sobre isso.

Quando passei a me dedicar ao Cordel algumas pessoas diziam que eu não era um bom advogado e que eu tinha entrado no ramo como uma fuga. Mas não foi bem isso. Cheguei a trabalhar por tempos na Folha de São Paulo como jornalista, exerci outras atividades… Enfim… Não tinha necessidade de provar nada a ninguém. Tanto o curso de Direito quanto o de Jornalismo na verdade só me ajudaram a entender ainda mais o universo da cultura popular brasileira. A origem do Jornalismo no Brasil, por exemplo, está diretamente ligada à origem do Cordel.

Por conta do regime militar, que durou vinte anos no Brasil, o Cordel foi perdendo força a partir dos anos setenta. Isso porque uma das suas principais características é justamente a crítica social, aliada ao seu caráter documental. Como foi a sua atuação nesse contexto?

Olha só, Elton, o cordel por muito tempo passou como folclore. Então ele não chegava a incomodar muito os “de lá de cima”. É claro que algumas pessoas desapareciam, e eu ficava muito preocupado com isso. Inclusive, escrevi cartas e entreguei aos meus amigos pedindo que eles as divulgassem caso algo acontecesse comigo. Tive muito receio. Alguns policiais chegavam às banquinhas onde eu vendia os meus folhetos, outros queriam me perseguir dizendo “o que é que um barbudo nordestino está fazendo aqui no sul? (S. Paulo)”. Eu tentava camuflar a coisa, dizendo que “isso era folclore brasileiro”. Mas não me envolvi muito em polêmicas, som queria fazer o meu trabalho.

franklin maxado - poeta nordestino brasileiro

Fonte: Google

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ENTREVISTA COM JOSÉ WALTER PIRES

Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, professor aposentado e bacharel em direito, ZéWalter é, além de tudo, um grande poeta. Para provar o que digo, reproduzo aqui uma entrevista concedida por ele, toda ela em versos.

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Foto: Google

Primeiramente gostaríamos que você fizesse pequena síntese da sua biografia.

Zewalter, nome de guerra
José Walter, batizado
O “Moraes” ficou perdido
Mas o “Pires” foi herdado
De nascimento bissexto
Que me serviu de pretexto
Pra ficar mais conservado

Por paixão educador
Profissão advogado
Sociólogo um fascínio
Palestrante, sou focado
Nas mudanças do milênio
Para conquistar o prêmio
De não sair do mercado

Quais foram os motivos que o levaram a Brumado?

Nativo de Ituaçu,
Adotivo de Brumado
Vindo nos anos setenta
Professor designado
Do Colégio Estadual
Como exigência legal
Por concurso efetivado

Por ser irmão de um dos maiores nomes da MPB, o consagrado Moraes Moreira, como você analisa o atual momento da música brasileira?

A cultura musical
Do Brasil é variada
Não existindo conflitos
Pela forma divulgada
Pois gosto não se discute
E há mesmo quem escute
Lepo – lepo na parada

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Com o irmão mais novo: Moraes Moreira / Foto: Google

Em sua opinião a obra literária produzida no Brasil evoluiu?

Com certeza evoluiu
A nossa literatura
Com poetas e os escritores
Retratando a cultura
Em sua diversidade
Também versatilidade
Numa mestiça feitura

No seu currículo artístico está incluída a música? ou seja, toca algum instrumento?

Sou meio desafinado
E também não toco nada
Mas ouvir quem canta e toca
Minha marca é apurada
Com meu senso musical
Não gosto do que é banal
Pela mídia divulgada

Você já escreveu canções?

Ser poeta é ser artista
Exprimindo em cada verso
O que seus olhos vislumbram
Nas entranhas do Universo
Todo poema é canção
Que arpeja o coração
Nas paradas de sucesso

Qual é a sua grande paixão?

Sou Pierrot apaixonado
Ou quem sabe um beduíno
Pelas trilhas da existência
Construindo meu destino
Tenho paixão por cordel
E ser grande menestrel
E tudo que mais estimo.

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Foto: google

Você já pensou em ingressar na vida pública e seguir uma carreira política?

Tentar até que tentei
Porém, não fui contemplado
Pelos nossos eleitores
Com o voto desejado
Confesso, valeu a pena
Experimentar o esquema
Sem me sentir derrotado.

Como você analisa o atual momento da cultua brumadense?

A cultura brumadense
Precisa ser sacudida
Nos seus diversos momentos
No bairrismo resumida
Buscar novos horizontes
No contexto de outras fontes
Para ser reconhecida.

Como você define o povo brasileiro?

Sergio Buarque, afirmou
Em “Raízes do Brasil”
A índole do brasileiro
Descrevendo seu perfil
Como homem cordial
No seu trato social
Sem confundir com servil.

Defina Brumado em uma estrofe.

De Brumado tenho dito
Em muitas ocasiões
Precisa buscar seu rumo
Distante das ilusões
E reverter seu passado
Com projeto lastreado
Em renovadas ações.

Você é reconhecidamente apaixonado pelo cordel. como começou essa paixão?

A paixão pelo cordel
Vem de tempos mais distantes
Ainda muito criança
Com as leituras constantes
De gibis e os almanaques
Os cordéis como destaques
E romances palpitantes.

Você foi convidado, tempos atrás, a ingressar na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Conte-nos um pouco desse sentimento em se tornar imortal.

Meus cordéis ganharam asas
Saindo dessa fronteira
Chegando a vários lugares
Da cultura brasileira
Reconhecidos e aceitos
Pela forma que são feitos
Pra merecer a Cadeira.

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Foto: Google

O que precisa ser feito nas Escolas de Brumado para incentivar a cultura, em especial, o cordel?

Incentivar a cultura
Só se consegue fazendo
Um trabalho diferente
Do que está acontecendo
A rotina é um fracasso
Seguindo nesse compasso
A cultura vai morrendo.

Em sua opinião a tecnologia influenciou para o bem ou para o mal a nova geração?

Já não se pode viver
Sem a tecnologia
Face da modernidade
Que renova a cada dia
Acredito ser um bem
Pelo sentido que tem
De nova filosofia.

Filosofia do amor
E também da igualdade
Se isso não acontecer
Será pura falsidade
Promessa capitalista
Que nunca perdeu de vista
Dominar a humanidade.

Qual a sua projeção para Brumado no futuro?

Vou dar uma de vidente
E fazer a predição
Vejo um futuro confuso
Nessa próxima eleição
São frágeis as lideranças
Para as nossas esperanças
De total renovação.

Futebol é realmente o ópio do povo ou uma grande paixão do brasileiro?

Já falei do brasileiro
Numa estrofe anterior
Repetir é enfadonho
Vou cansar o meu leitor
Mas futebol é paixão
E alegria do povão
Sob o delírio de um “gol”!!! (êpa!)”

Algum agradecimento?

Quem não sabe agradecer
Pelas conquistas da vida
Não serve para viver
Ou mesmo reconhecida
Como pessoa bem vista
Mas sempre como egoísta
Que não merece guarida.

Acho que já disse tudo
Ou de tudo fiz resumo
De outra feita falo mais
Porém ser perder o rumo
Pra falar o que não devo
Pois o que digo ou escrevo
Tem régua, compasso e prumo.

(Para saber mais sobre ZéWalter vá em nosso menu Personalidades)

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ENTREVISTA COM J. BORGES

Durante os dias 14 e 17 de abril de 2015 a cidade do Salvador recebeu o II Festival de Ilustração e Literatura da Bahia. Um dos convidados ilustres foi o poeta e xilogravador J. Borges que, além de palestra, realizou uma oficina. Na ocasião, eu tive o privilégio de entrevistar o mestre, que é considerado por muitos o maior xilogravador do Brasil, além de ter recebido o título de patrimônio vivo do estado de Pernambuco.

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EM – Mestre J. Borges, em primeiro lugar, gostaria de saber como o senhor prefere se definir: como cordelista ou xilogravador?

JB – Olha, Elton, eu prefiro me definir pelos dois lados. A xilogravura nasceu em mim a partir da necessidade de ilustrar o cordel. O cordel foi o meu início em tudo e eu devo muito a ele. Criei minha família trabalhando com a Literatura de Cordel. Hoje a gravura me alimenta mais, ganhei mais visibilidade com ela, mas não desprezo o cordel. Como diz o provérbio popular: “uma mão lava a outra”.

EM – Como se sente voltando a Salvador e sendo uma das principais figuras desse Festival?

JB – Estou muito alegre porque fui muito bem recebido aqui e, além disso, Salvador é um lugar que eu gosto muito. Faz trinta anos que eu estive aqui e encontrei a cidade muito diferente. O progresso, assim como chegou nas outras grandes cidades, chegou por aqui também. Ela está muito mais organizada, também com muito mais automóveis, muito movimento, três vezes maior do que quando vim aqui nos anos 70. Estou feliz por participar dessa Jornada cultural e espero que o povo fique satisfeito com o meu trabalho.

EM – De onde partiu o seu interesse pela literatura de cordel? Quando começou isso?

JB – Eu morava no sítio, quando criança, e lá não tínhamos acesso ao jornal, à revistas, não tínhamos rádio e ainda nem se fala em televisão. A única diversão que existia era com a Literatura de Cordel, que era lida nos feriados, nos dias santos e na boca da noite. O tempo que hoje o povo gasta assistindo novela era a hora que se assistíamos os dois romances que o meu pai lia e eu gostava muito. Eu me apaixonei por isso e quando cheguei aos 20 anos entendi de comprar, vender e trabalhar com o Cordel, até que escrevi o primeiro. Daí em diante não parei mais. A partir do segundo folheto, precisei ilustrar, pois não tinha quem fizesse isso. Aí eu peguei um pedaço de madeira e tentei fazer. Deu certo.

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EM – Me fale um pouco do seu contato com Ariano Suassuna

JB – Em 1970 o Ariano pegou o meu trabalho e disse que eu era o melhor ilustrador do Nordeste na opinião dele. Aí o povo acreditou e eu me dei muito bem com isso. Desde então eu procurei fazer jus à opinião dele, trabalhando dentro da minha linha e do meu traço, com os temas da nossa região, que é muito rica em cultura popular, e por isso eu continuo fazendo os dois – Cordel e gravuras.

EM – O senhor tem alguma técnica específica, algo que o senhor mesmo acrescentou à xilogravura?

JB – Tenho sim. Quando eu comecei a fazer gravuras, só fazia em preto e branco. Eu inovei fazendo a gravura colorida, mas de uma outra forma. Pra se fazer a gravura colorida tem que ser cada cor numa matriz diferente. Aí eu tentei pintar a matriz e deu certo. Hoje 80 por cento do meu trabalho eu faço em cores, pois o povo gosta mais. Foi aí que eu inovei. Quando se trata de impressão eu tenho feito diferente dos outros.

EM – A família Borges é conhecida em todo o país pelo seu trabalho com a Xilogravura. É algo genético?

JB – É, rapaz… Quando eu comecei ainda não tinha ninguém na família. Mas depois apareceu um aqui me ajudando, me vendo fazer… o outro se interessou… e hoje eu acho que existem uns 15 ou 20 na família fazendo xilogravura entre Recife, Bezerros, Caruaru e até mesmo no Rio de Janeiro. Téo, o Joel que é meu primo, o Evanilson que é meu sobrinho, Tem o Severino Borges, que é muito conhecido também, o irmão dele, Silvio, e, das mulheres, tem Nena, que é mulher do meu irmão que faleceu e também desenhava.

EM – Como tem sido feita a divulgação do seu trabalho, não só no Brasil como também no exterior?

JB – Tem sido divulgado sempre. No Brasil, através das emissoras de tv, nos jornais, na internet. E no exterior de vez em quando sai alguma coisa. Conheço muita gente lá fora, já fui em vários lugares da Europa, Nos Estados Unidos e já fui em várias capitais aqui da América do Sul para dar aulas e palestras. Por conta disso, meu nome é espalhado pelo mundo inteiro.

EM – Tem noção do tamanho da sua produção?

JB – Em cordel sim, dá pra contar. Eu geralmente controlo e já escrevi 311 folhetos. Eram 309, mas agora eles deram pra pedir cordel pra casamento, contando a história dos noivos. Aí já sabe, né… eu acabo fazendo por encomenda, pra agradar os amigos, pra dar de prenda a eles.

EM – Como o senhor tem visto a produção da LC nos dias de hoje? Tem acompanhado sua vasta produção?

JB – O cordel tem sido divulgado no mundo inteiro, e por conta dos movimentos estudantis é que ele não morreu. Isso porque nos anos 90 ele estava com o pé na cova, por conta do fim dos cordelistas de praça e de feira… Quase ninguém vendia mais. Por conta das escolas, das universidades, dos turistas e dos colecionadores o cordel recuperou um pouco da sua força. Não totalmente, porque se for comparar com a produção dos anos 50 sua produção hoje ainda não é tão grande. O problema é que os cordéis que são produzidos hoje são muitos de má qualidade. Lá (Pernambuco) tem um monte desses tais poetas urbanos que escrevem muita porcaria. Eu mesmo nem leio. E só estou dando esta entrevista pra você, vou ser franco, porque eu li seus versos ali… e você é poeta. Você obedece às regras do cordel… Esses de hoje não. Eles estão escrevendo numa bagunça danada que ninguém sabe dizer o que é aquilo. Fazem um monte de livretos no formato e dizem que é cordel, mas de cordel não tem é nada.

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(entrevista na Biblioteca Pública dos Barris)

EM – não há espaço hoje para a produção de um cordel mais livre sem tanta exigência da rima, da métrica e da oração?

JB – Não. O cordel não é assim não. Tem que ter suas regras, suas rimas positivas. O tempero da poesia de Cordel é a rima, o rapaz não pode chegar e rimar tempo com pensamento, isso não é rimar. No tempo em que eu trabalhava nas feiras, 80 por cento do povo era analfabeto. Ficavam todos escutando os versos. Na hora em que se lia uma história e que tinha uma rima quebrada, o matutão que estava lá, com o saco nas costas, parava e gritava na hora: “Cagou!” (Risos). Eles ficavam tão ligados nas rimas que percebiam na hora. Agora o sujeito que vem de universidade chega escrevendo com um monte de rima quebrada e quer que eu diga que está bom (risos)

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ENTREVISTA COM GONÇALO FERREIRA DA SILVA – PRESIDENTE DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LITERATURA DE CORDEL

Em abril de 2015 visitei a ABLC e lá, num gostoso bate-papo, entrevistei o Gonçalo Ferreira da Silva, fundador da Academia – localizada no bairro de Santa Tereza no Rio de Janeiro.

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EM – Mestre Gonçalo, o que é a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) ?

GFS – É uma instituição que surgiu de uma ideia bastante luminosa. Foi criada com a finalidade precípua de difundir e contribuir com a produção da Literatura de Cordel no mundo inteiro. A sua produção é notável: temos aqui cerca de 300.000 (trezentos mil) folhetos de cordel disponíveis para a venda em todo o mundo. Muitos poetas aperfeiçoaram sua produção aqui, foram revelados pela Academia. Foi fundada no dia 7 de setembro de 1988 e completou agora 27 anos. De lá pra cá, ela tem progredido bastante, inclusive internacionalizou-se. Já mostrei a Academia para metade do mundo, principalmente para os países lusófonos da África, a exemplo do Golfo da Guiné, quando fui, à convite do embaixador do Brasil em São Tomé e Príncipe.

EM – Como ela funciona institucionalmente?

GFS: A Constituição da Academia faz com que seu quadro de titulares seja de 40 acadêmicos. Isso porque pensamos em organizá-la dentro dos moldes das academias mais tradicionais, como a Academia Brasileira de Letras, a Academia Francesa e outras. Como a sua finalidade principal sempre foi divulgar a Literatura de Cordel, distribuímos folhetos pra toda parte do mundo. Chegam por aqui pesquisadores de todas as partes e a Academia consegue cumprir com esse trabalho. Foi lá no tabuleiro da Feira (de São Cristóvão – RJ) onde surgiu a ideia de nos organizarmos e, desde sempre, tínhamos a intenção de fazê-la grande. A ABLC tem 20 cordeltecas espalhadas pelo Brasil, 5 só no Ceará, e nós as visitamos e abastecemos frequentemente. Em cada um desses espaços há um responsável por promover atividades culturais para a comunidade, ressaltando assim, como você me perguntou, a função social do Cordel.

EM – Sem querer comparar, mas já comparando, é senso comum o fato de que os poetas do Cordel não têm a mesma visibilidade, não conseguem repercutir tanto quanto os poetas da Academia Brasileira de Letras. Existe uma relação entre esse fato e a fundação da ABLC? Ou seja, sua origem foi impulsionada por um processo de autoafirmação?

GFS: Com toda certeza! Na época da sua fundação, eu trabalhava na Rádio MEC e foi lá onde me aposentei. Ali conheci muita gente importante. Procurei e pedi a opinião de muitos amigos intelectuais, inclusive da ABL. O próprio Carlos Drummond de Andrade, com quem trabalhei durante 15 anos no mesmo gabinete, quando soube do fato achou muita graça. Logo ele que geralmente não era de achar graça, falava pouco e tudo mais, me disse: “Gonçalo, não é por nada não, mas você é um intelectual, você está no mundo das Letras eruditas, como é que você vai fazer uma coisa dessas? Gonçalo, os poetas populares são pessoas a quem devemos admirar, e não institucionalizar.”. O mesmo aconteceu com O Prado Júnior (Caio). E o pior é que eles não estavam errados.

EM – Porque o senhor afirma isso?

Olhe Elton, quando a ABLC foi fundada e eu ia à feira (de S. Cristóvão) e, meu amigo, os repentistas faziam estrofes ofensivas gratuitamente! Era pra ofender mesmo! Quando acabavam de fazer as estrofes, eu batia palma (risos). Um missionário não pode se ofender assim por qualquer coisa. Um missionário que se ofende é um fracassado, porque a primeira coisa que um missionário recebe é a ofensa. São vozes contraditórias, e se você não estiver acima dessas vozes estará sujeito ao fracasso. Estamos aqui para unir opostos. O missionário consegue o milagre de estar num instante na feira e em outro momento numa universidade fazendo uma conferência. Um homem que se ofende não pode pensar em missão, ele está num estágio espiritual muito grosseiro.

CAM04226(Prelo – máquina precária utilizada para a confecção de folhetos – que pertenceu ao poeta Leandro Gomes de barros)

EM – Pensando também no caráter diverso do gênero, qual é a importância, social ou não, da Literatura de Cordel para o país ainda hoje?

GFS: Você sabe que a LC voou hoje do barbante para as universidades, né? E isso se deu pela qualidade. Quando a Academia é convidada para lançar uma coleção na Biblioteca do Congresso Americano, uma biblioteca com 161 milhões de exemplares contando a história da humanidade desde surgimento da escrita até hoje, é por conta da sua qualidade. Quando um autor reclama que não tem chance, usa do galicismo chance ao invés de oportunidade, é porque falta alguma coisa. O Carlos Drummond, quando andou por aqui entre os pecadores, me disse: “se você tem qualidade será visto, é só esperar”. Quando a LC chegou às universidades e ao currículo escolar, ela chegou como um ingrediente a mais na formação do cidadão, especialmente na formação das crianças que ainda estão engatinhando em busca do conhecimento pra se integrar à sociedade de forma digna. Quando “O Cachorro dos Mortos” do Leandro Gomes de Barros ficou por um tempo na lista de livros do vestibular da Universidade federal da Paraíba, isso aconteceu pela repercussão do nome do Leandro e, principalmente, pela sua excelente qualidade.

EM – E fora do Brasil, existe também uma produção da LC?

GFS – A LC é produzida em muitos países, até mesmo naqueles cujas vertentes não são peninsulares. Quando você vê a arte popular escrita na língua anglo-saxônica… ela faz parte disso. O que ela não tem é o nosso espírito. Até mesmo nos países da América do Sul a LC campeia, só que não tem este formato e essa roupagem. Não tem essa obrigatoriedade. Ela é editada em formato de jornal, em formato de tablado, de revista, ou seja, não tem essa padronização. E os nomes também são diferentes, é claro.

CAM04223(O grande acervo da ABLC)

EM – Fale um pouco mais da relação entre as universidades do exterior e a LC

GFS – É um intercâmbio permanente com as principais universidades, com os principais centros voltados para os estudos de línguas lusófonas. Tem a Universidade de Poitiers na França, também a Sorbonne. Montpellier tem uma belíssima biblioteca no ponto de vista visual. Não é em termo de quantidade, mas eles se preocuparam (por coisas deles mesmos – os franceses) em fazer uma coisa bem feitinha…

EM – Quais são as dificuldades em manter, por mais de 20 anos, a ABLC? Na verdade, elas existem de fato? Há algum apoio por parte do governo para tal empreitada?

GFS: É engraçado que o seu conterrâneo Moraes Moreira fez a mesma pergunta (Moraes se tornará, em breve, o próximo imortal da Academia, ocupando a cadeira de Manoel Monteiro, falecido em 2014). Eu digo para você que não. Aqui, a única ajuda que eu tenho é o meu próprio salário e quando você me compra um livro, um folheto ou algum objeto daqui (risos).

EM – Então o senhor é um mártir!

(muitos risos)

GFS: A maior heroína está ali (aponta para Dona Mena, esposa do poeta e madrinha dos cordelistas da feira de São Cristóvão). É a Mena quem resiste valentemente a esse tipo de coisa. Está faltando uma geladeira nova, mas estamos pensando em lançar novos livros. Esse é o verdadeiro martírio do artista, como disse Augusto dos Anjos em seu belíssimo soneto (risos).

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EM – No ano 2000 o senhor escreveu um folheto intitulado “Brasil: um país de traficantes. Como tem visto o país 15 anos depois? O que foi que mudou?

GFS – Não mudou nada. Na verdade, mudou pra pior. A violência só tem aumentado. Eu não sei como é que pode um negócio desses. No ponto de vista da tranqüilidade, só piora (…) Em relação às UPPs, a intenção pode ter sido boa, mas foram mexer com os maribondos da natureza que não têm nenhuma responsabilidade para com o semelhante, isso é muito difícil… É uma coisa que precisa ter muita habilidade e tato. Principalmente porque o governo diz uma coisa e na prática é outra. Piorou.

CAM04234

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