19 NOVEMBRO: DIA DA LITERATURA DE CORDEL

Hoje, 19 de novembro, comemoramos no Brasil o dia da Literatura de Cordel, uma homenagem ao poeta Leandro Gomes de Barros, um dos pioneiros da nossa poesia popular. Leandro completaria, nesse momento, 150 anos. Por coincidência, 19 de novembro também é o dia da Bandeira nacional e o meu aniversário, e nesse instante acabo de completar  30 anos.

Quando soube da importância da data fiquei muito feliz, mas isso foi a pouco tempo, assim como também comecei a me dedicar ao Cordel há apenas 4 anos. De lá pra cá escrevi uns 20 folhetos e um livro em cordel: 2014: o ano da copa no país do futebol. 

Nunca fui muito prolixo em relação à produção. Respeito todos os meus amigos e mestres que já escreveram mais de 100, 200, 300 folhetos, porém acredito, de verdade, que o excesso acaba prejudicando a consistência da obra de um autor. Trato todos os textos meus com a mesma importância, claro que com uma certa preferência.

Dentre esses, o único que não transformei em folheto é uma espécie de depoimento, uma apresentação: Poeta do asfalto. Isso porque já é mais do que sabido que o Cordel se formou e resistiu desde sempre no Sertão nordestino, preservando, desse modo, nossa linda e riquíssima tradição. Mas os tempos mudaram; enquanto ainda existem muitos poetas que cantam o nosso Sertão e tentam, assim, preservar a nossa arte, outros poetas vão aos poucos se inserindo dentro dessa tradição, porém seguindo caminhos diversos, principalmente no que diz respeito à temática.

Eu nasci em Castro Alves, interior baiano, mas sempre vivi em Salvador, que está impregnada em mim. Salvador é a terceira maior capital do país e traz consigo todos os problemas de uma grande cidade. É inevitável não levar isso para os meus textos em cordel. Foi assim que, tentando justificar essa minha posição de “cordelista urbano”, acabei traçando esses versos tortos que agora reproduzo para vocês. Viva o dia 19! viva a Literatura de Cordel!

Sou um poeta do asfalto
Mais que afeito ao azedume
Citadino, rotineiro.
Medianos por costume
Os meus versos são borrados
De muita graxa e betume.

Respeito e muito admiro
O dito puro cordel
Versos presos à memória
Que nunca viram papel
Que voam na voz do homem
À sua arte fiel.

Também nasci no sertão
De gestação incompleta.
A cidade: Castro Alves –
Silenciosa, quieta –
Que como muitos já sabem
Leva o nome do poeta.

Contudo desde pequeno
Parti para a capital
Cresci em cidade grande
Bairro dito marginal
E Salvador se tornou
Meu habitat natural.

Queria ter tino forte
Como um grande cantador
Que ao cantar sua aldeia,
Prezando pelo primor,
Protege os traços do homem
Que vive no interior.

Eu tumém quiria sê
Puéta de interiô
Que canta como quem fala
Sem cisquecê do rigô,
Que animal chama animá
E a flor chama fulô.

E, de alguma maneira,
Só coisas belas cantar:
Botar sal na macaxeira,
Colorir o sabiá,
Afirmar de peito aberto
Que o sertão vai virar mar,

Flertar com uma donzela,
Trocar versos de paixão,
Rodear sua janela,
Corromper o seu irmão
Pra que ao dormir com ela
Ao seu pai não conte não.

Mas nessa cidade grande
Em tudo sou maltratado,
Desse modo eu faço jus
Ao que aqui tenho passado
E por isso, infelizmente,
Meu canto é desafinado.

E assim é que me apresento
Desde já me desculpando
Dizendo que felizmente
Por aqui eu vou ficando
E esses versos fodidos
Pra vocês sigo deixando.

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